Geração Z impulsiona nova dinâmica no mercado de arte contemporânea
Máscara Elx, 2020 Sandra Lapage crédito imagem Ana Pigosso
Mercado global movimentou US$ 57,5 bilhões em 2024 e registra uma mudança no perfil dos colecionadores
O mercado de arte vive uma transformação impulsionada pela entrada de uma nova geração de compradores. Mais conectados, digitais e interessados em consumir obras que expressem identidade, propósito e afinidade estética, esses colecionadores vêm alterando a dinâmica de compra, ampliando o número de transações e diversificando o perfil do mercado.
Essa mudança acontece em um setor que segue movimentando cifras bilionárias. Segundo o Art Basel & UBS Art Market Report 2025, o mercado global de arte movimentou US$ 57,5 bilhões em 2024. O período foi marcado pelo aumento no número de transações e pela entrada de novos compradores, indicando um mercado mais pulverizado e acessível, ainda que o valor total das vendas tenha registrado retração em relação ao ano anterior. No Brasil, o movimento é ainda mais expressivo: o Art Basel & UBS Survey of Global Collecting 2025 aponta que 72% dos colecionadores de alta renda pretendem adquirir novas obras, o maior índice entre os mercados analisados.
Mais do que ampliar a base de compradores, esse movimento revela uma mudança no comportamento de consumo. Para parte da Geração Z, a aquisição de uma obra deixa de estar associada exclusivamente ao prestígio ou ao status e passa a refletir identificação com o artista, afinidade com sua pesquisa e conexão com temas contemporâneos. As redes sociais também ganharam protagonismo nesse processo, funcionando não apenas como vitrine, mas como espaço de descoberta, formação de repertório e aproximação entre artistas, galerias e novos colecionadores.
Esse cenário já pode ser observado no Brasil por meio de diferentes perfis de galerias. Enquanto a Contempo acompanha o interesse crescente por artistas vivos e produções alinhadas às discussões contemporâneas — como a jovem artista Sandra Lapage, cuja exposição em cartaz até julho utiliza cápsulas de café reaproveitadas para criar obras que refletem sobre sustentabilidade e consumo consciente —, a Galeria Pro Arte percebe que jovens colecionadores também têm buscado artistas consagrados, reconhecendo neles tanto relevância histórica quanto potencial de valorização.
Na Contempo, esse comportamento já aparece de forma concreta. O número de compradores com menos de 30 anos vem crescendo e revela um perfil que prioriza artistas com os quais estabelece uma relação de identificação, valorizando obras originais e acompanhando de perto a produção artística pelas redes sociais.
“Percebemos que muitos jovens chegam à galeria depois de acompanhar o trabalho do artista nas redes sociais. Eles pesquisam, entendem o processo criativo e criam uma conexão antes mesmo da compra. O colecionismo passa a ser uma extensão da própria identidade. Hoje, a obra precisa fazer sentido para quem a adquire”, afirma Márcia Felmanas, sócia-diretora da Galeria Contempo.
Na avaliação do curador Fabricio Reiner, a transformação vai além da renovação geracional. “As redes sociais deixaram de ser apenas um canal de divulgação e passaram a fazer parte da formação de repertório desse público. Muitos compradores chegam às galerias já conhecendo a trajetória dos artistas e com um olhar bastante definido sobre o que procuram.”
Se, por um lado, cresce o interesse por artistas contemporâneos e produções alinhadas a temas como sustentabilidade, identidade e questões sociais, por outro, há também jovens que iniciam suas coleções a partir de nomes históricos da arte brasileira, enxergando nessas obras tanto relevância cultural quanto potencial de valorização.
“Observamos jovens que chegam muito bem informados e entendem que é possível construir uma coleção gradualmente. O investimento é um fator considerado, mas ele caminha junto com a vontade de conhecer a história da arte brasileira e adquirir obras que façam sentido para sua trajetória como colecionador”, afirma Mônica Felmanas, sócia-diretora da Galeria Pro Arte.
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Esse interesse também se reflete na procura por artistas brasileiros de reconhecimento internacional. Na Pro Arte, jovens colecionadores têm buscado nomes já consolidados, conciliando o desejo de construir um acervo relevante com uma visão de longo prazo sobre valorização. Entre os destaques estão Adriana Varejão, que representa o Brasil na 61ª Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia, ao lado de Rosana Paulino, no projeto curatorial Comigo ninguém pode, e Alex Flemming, artista com sólida trajetória internacional e atualmente em destaque com a exposição Alex Flemming: Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo. Ambos integram o acervo da Pro Arte.
Para especialistas do setor, a chegada da Geração Z representa uma mudança estrutural para o mercado de arte. Mais do que renovar o perfil dos compradores, esses colecionadores vêm transformando a forma como as obras são descobertas, escolhidas e incorporadas às coleções, combinando repertório construído no ambiente digital, identificação com os artistas e uma visão de longo prazo sobre o valor cultural e patrimonial da arte.
